quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Pequeno Príncipe

Qual livro escolher em um mês tão importante para literatura infantil senão "O Pequeno Príncipe"? Mas antes de qualquer coisa, porque esse mês é tão importante? É em abril que se comemora o Dia Mundial da Literatura Infantil, mas especificamente no dia 02, no qual nascia o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, autor de A Pequena Sereia, O Patinho Feio dentre outros clássicos. Ainda nesse mês, comemora-se o Dia Nacional da Literatura Infantil, 18-04, data de nascimento de Monteiro Lobato, grande autor brasileiro eternizado por O Sítio do Pica Pau Amarelo. Caso se interesse em saber um pouco mais desse dia, há um ano o Blog apresentou sua história em comemoração a essa data. Tudo isso, para em fim, dizer que precisamos falar sobre O Pequeno Príncipe!

O Pequeno Príncipe
Editora: Geração Editorial
Ano: 2015
Páginas: 160
Idioma: Português 

SinopseUm piloto cai com seu avião no deserto e ali encontra uma criança loura e frágil. Ela diz ter vindo de um pequeno planeta distante. E ali, na convivência com o piloto perdido, os dois repensam os seus valores e encontram o sentido da vida. 
Com essa história mágica, sensível, comovente, às vezes triste, e só aparentemente infantil, o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry criou há 70 anos um dos maiores clássicos da literatura universal. Não há adulto que não se comova ao se lembrar de quando o leu quando criança. 
Trata-se da maior obra existencialista do século XX, segundo Martin Heidegger. Livro mais traduzido da história, depois do Alcorão e da Bíblia, ele agora chega ao Brasil em nova edição, completa, com a tradução de Frei Betto e enriquecida com um caderno ilustrado sobre a obra e a curta e trágica vida do autor.

Opinião: Saint-Exupéry começa o livro pedindo perdão às criança por dedicar esse livro a um adulto, e elenca inúmeras desculpas para isso, incluindo o fato de que este adulto um dia já fora uma criança. E de fato, se é criança ou adulto, precisa lembrar da criança que é ou já foi para ler e apreciar essa bela obra. Nosso narrador é um piloto tentando arrumar seu avião após um pouso de emergência no deserto do Saara, aonde encontra um pequeno príncipe. Esse pequenino, lhe pede, a priori, para desenhar um carneirinho, porém, nosso autor não se mostra mui talentoso na arte de desenhar, já que como ele menciona na obra, fora desencorajado na infância. 
Ao conversarem sobre suas origens, o Pequeno Príncipe começa a contar-lhe sua história, como havia, afinal, ido parar naquele lugar? Nosso menino vinha de um planeta tão pequeno como uma casa, daqueles que são chamados pelos astrônomos de Asteroide mais um número,e não nome.  Pois, como nosso querido autor diz, Adultos adoram números... "Eles são assim mesmo. Nem por isso devemos lhes querer mal. As crianças precisam ter muita paciência com os adultos."
O planeta do nosso pequenino era cuidado todos os dias por ele, esse mesmo ainda possibilitava que o pôr do sol fosse visto várias e várias vezes de tão pequeno que era, e isso pode ser bom, quando se está triste...O principezinho vai mostrando ao piloto os riscos de ser adulto e só pensar em coisas sérias. Como, por exemplo, menciona um sujeito vermelho que morava num planeta sozinho fazendo contas, sem contemplar estrelas ou viver nenhum amor. Falando de amor, a maior preocupação do pequenino era com o bem estar de sua rosa, única em seu planeta, quem ele acreditava ser a única no mundo.
Um belo dia resolveu visitar o mundo, cuidou dos vulcões de seu planeta, até do extinto, por segurança, e aproveitando uma revoada de pássaros voou além... O primeiro asteroide  visitado era habitado por um rei que buscava exigir de cada um o que cada um podia dar, sua razão era baseada na sensatez. No segundo, havia um vaidoso, quem vivia sozinho e ainda se denominava melhor que todos os outros. Bem, o terceiro foi o que deixou o pequenino mais triste, conheceu um bêbado que bebia para esquecer a vergonha que tinha de ser bêbado. " Os adultos são mesmo muito estranhos, disse a si mesmo ao longo da viagem".No quarto, foi que encontrou o homem de negócios que contava as estrelas pensando que isso lhe fazia dono delas O quinto planeta era tao pequeno que só cabia o um acendedor de lampião, seu trabalho até parece útil ao olhos do menino, se não fosse o fato de que era feito sem parar e para seguir apenas o regulamento: apagando e acendendo o lampião ao nascer e pôr do sol, o planeta girando cada vez mais rápido e o sujeito apenas seguindo-o incessantemente. Qualquer semelhança com a realidade merece reflexão. No sexto planeta, encontrou um geógrafo, quem de nada na realidade conhecia, apenas na teoria... Ao menos apresentou a Terra ao nosso pequeno príncipe.
Terra, sétimo e último planeta que o príncipe visitou, recheada por cerca de 7 bilhões de adultos. A procura de pessoas, no deserto em chegou encontrou uma serpente, uma flor - a qual diferente dos seres humanos criam raízes, uma montanha, várias rosas, uma raposa , um despachante e um vendedor de pílulas destinadas a amenizar a sede para economizar tempo. Quando se deu conta de que sua rosa não era a única no universo e de que seus vulcões não eram grande coisa deu-se a chorar. Então, conheceu a raposa, quem lhe ensinou o significado de cativar e tornar-se único no mundo. "As pessoas já não tem tempo de conhecer nada. Preferem comprar tudo pronto nas lojas. Como não existem lojas que vendem amigos, as pessoas não tem mais amigos. Se quer um amigo, trate de me cativar."
Quase morrendo de sede, o piloto e o príncipe encontram o prazer em um gole d'água de um poço no meio do deserto. Para cada um, depois, seguir o seu caminho e entender o verdadeiro sentido da vida. O Pequeno Príncipe, é um livro doce e singelo, contar-lhe mil vezes e comentar todos os seus detalhes jamais resumiriam o prazer sentido ao lê-lo. Pois bem, lhes convido, leiam, sintam e entendam, porque "O essencial é invisível aos olhos'.


quarta-feira, 29 de março de 2017

Beauty and the Beast

Sinto ser uma grande responsabilidade realizar a crítica do remake de um filme tão conceituado como A Bela e a Fera. Maior responsabilidade, porém, foi do diretor que se responsabilizou por gravar o antigo longa infantil em live-action. Com grandes expectativas desse desenvolvimento não pude deixar de conferir no cinema a magia do clássico. E devo admitir, eu não me arrependi, foi um filme muito prazeroso de se assistir e um tanto quanto nostálgico.



Data de lançamento: 16 de março de 2017 
Duração: 2h 09min
Direção: Bill Condon
Gêneros: FantasiaRomanceMusical
Nacionalidade: EUA

A Bela e a Fera : Poster
Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana.

Opinião: O filme começa nos apresentando a cena clássica de abertura, na qual o príncipe é enfeitiçado e condenado a ser uma fera, isto é, a menos que alguém se apaixone por ele até o cair da última pétala da rosa vermelha. Então, acompanhamos o belo cenário do castelo se transformar, seguido de uma cena no pequeno vilarejo no interior da França. Uma das grandes sacadas do longa é exatamente a contextualização da obra na inserção de cenas extras para suprir a lacuna de tempo.
A mágica da fidedignidade do filme de 1991 segue com pequenas cenas extras e alterações necessárias para a verossimilhança da obra e até para a possibilidade de concretização digital, como a alteração no design da "Mrs. Potts". Ou ainda com a explicação mais lógica do porque o pai de bela chegou ao castelo com a queda de uma árvore. Essas minúcias conduzem a história a um bom nível de qualidade.
As grandes alterações partiram do pressuposto do passado dos personagens. Por exemplo, LeFou e Gaston acabam de voltar da guerra, na qual Gaston demonstra ter tido sede de sangue e seu fiel companheiro demonstra ter interesses secretos por seu amigo. A melhor explanação dos personagens nos leva a simpatizar melhor com eles ou antipatizar com a vilão bem mais expressivo. 
Ainda nessa linha de pensamento, é possível encontrar breves comentários sobre a criação da Fera que o levaram a superficialidade e a encobrir seus sentimentos. Admito que esperava um maior susto por parte da Fera em algumas cenas, mas me parece que nesse longa o quiseram deixar mais bonzinho do que nunca. Enquanto isso,  a Bela ficou mais independente e bem resolvida do que já era, graças a atuação de Emma Watson. Ainda, o roteiro traz algumas cenas dramáticas sobre a mãe de Bela, as quais não me pareceram tão necessárias, porém, não fizeram mal.
Tendo em vista, o peso de reconstruir uma obra tão renomada como A Bela e a Fera, trazer o contexto da época, e ainda atender o público moderno, não posso deixar de dar crédito a obra. Pode não ser o melhor filme do ano, mas definitivamente é um dos que vale a pena assistir. Agora, o melhor mesmo, definitivamente são as novas canções, que sim, eu amei.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Sim, feminista!- Análise a luz do livro "Sejamos Todos Feministas"-Chimamanda Ngozi Adichie

Há cerca de dois anos abordei esse mesmo assunto, ainda que na época não possuísse tanto conhecimento sobre o tema quanto possuo hoje. Antes de começar a discorrer sobre o que penso agora, acho válido mencionar porque eu me posicionava diferente antes e no que mudei. Sempre detestei tarjas, etiquetas ou qualquer outro tipo de coisa que nos prendam a uma opinião estigmatizada. Admito que ainda tenho certa aversão por isso, mas compreendo a necessidade de se posicionar algumas vezes, mesmo correndo o risco de ser mal interpretada.
Imagem relacionadaEsclarecida de uma vez essa situação, parto para o novo problema a ser abordado: o que é ser feminista, afinal? Nos dias de hoje, o feminismo carrega uma bagagem muito grande, e quando tratamos sobre ele, é preciso deixar os preconceitos de lado. O discurso da feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, redigido em forma do livro intitulado "Sejamos todos feministas", resume bem forma que enxergo esse termo  "A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: 'Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar'. Todos nós, mulheres e homens, temos que melhorar" .
Entendo o receio das pessoas em tomar um posicionamento, ou ainda daqueles que preferem se abster, mas sabe, ser feminista é algo que só se entende vivendo. No momento em que você percebe que predominantemente as mulheres é quem cozinham ou cuidam em casa (o que nem sempre é por gosto ou prazer), em como são minoria nos altos cargos (principalmente das gerações mais antigas) e que a mulher é extremamente objetificada nos filmes e músicas é que sente o baque. Ouvir as pessoas falando que não contratam mulheres porque elas não dão conta do serviço pesado, e pior, vê-las aceitando isso como verdade é horrível. 
Essas são só algumas situações as quais a mulher passa em sociedade que despertam esse sentimento de que algo precisa ser mudado. Porém, calma, antes que alguém se levante e me chame de mal-amada, frescurenta, geração mi-mi-mi ou qual quer outro termo pejorativo, deixe-me mostrar o outro lado da história.  Os homens, por sua vez, também são atingidos pelo problema da desigualdade de gênero. Essa postura de machão exigida para eles não me parece nada confortável, quantas vezes não ouvi piadinhas sobre meninos que gostavam de cozinhar ou eram românticos? Alguém gosta de ser ridicularizado ou obrigado a se portar de modo desconfortável?  Isso só para começo de conversa, ou seja, só o superficial. Todo esse contexto me deixa extremamente triste, mesmo quando não me atinge.
Ainda na semana passada, no dia da mulher, ouvi uma conversa vinda de dois rapazes que me soou curiosa. Um deles estava indignado com a necessidade das mulheres de se posicionarem como feministas. Fiquei quieta, e mesmo evitando ouvir conversa alheia, o tema me chamou a atenção, portanto permaneci atenta. Logo, este explicou que achava que homens e mulheres eram iguais e não lhe importava quem fazia o serviço no emprego, porque as mulheres podiam fazer até melhor do que os homens, e falou ainda que cada um veste o que desejar. De certo modo achei engraçado, ele quem dizia não entender o feminismo partia da mesma premissa que este. Penso que ser feminista não esteja apenas em ler "O Segundo Sexo" de Beauvoir, livro que me tem feito refletir muito por sinal, postar frequentemente sobre o tema ou corrigir atos machistas ( ainda que esse seja o reflexo prático da interiorização do conceito); Mas está em entender que os seres humanos deveriam ser mais iguais o possível e que não é saudável aceitar condutar agressivas, preconceituosas ou sexistas só por receio ou por um visão cega da realidade. Porém, como feminista que aceito dizer que sou, digo, me interessa mais as suas atitudes e seu pensamento do que se você se intitula como feminista ou não. 
"A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos."-Chimamanda Ngozi Adichie

quarta-feira, 8 de março de 2017

Breve Reflexão Sobre O Dia da Mulher

Resultado de imagem para mulher imagem dia frida kahloPensei, pensei e pensei... E no final das contas, nesse dia, decidi fazer uma breve análise crítica do dia da mulher.  Buscarei ser sucinta e ainda assim reflexiva.
Ser mulher não é simples, ainda que ser "ser humano" de modo geral não o seja. Não me agrada a ideia de que a busca por espaço da mulher possa ser redutora do homem ou qualquer coisa do tipo. Não creio que seja esse o objetivo do feminismo. Mas isso será pauta para outra conversa.
Ainda, tendo em vista os desafios diários dessa mulher tão estereotipada pela sociedade, me pergunto porque seria tão importante ter um dia para nós? E imediatamente respondo com minha opinião: porque é válido ter um dia como representatividade. Porém, sinceramente, se você não pensa desse modo, não tem problema algum. Porque no fim das contas, somos mulheres, seres de direitos e deveres, todos os dias.
Sem estender muito essa reflexão, trago a diferença entre moral e ética. Moral é o pensamento cultural e pessoal, enquanto a ética é o modo com que nos relacionamos entre nós mesmos, ou seja uma gama de 'morais'. E o que isso tem de relação com o tema? Basicamente tudo!
Sou bastante consciente de que a moral é tão varíavel que dificilmente alguém chegaria a um acordo. Mas tenho pleno entendimento da importância da ética na sociedade. A questão traga hoje, aqui, no dia da mulher é que: se você gosta de presentear nesse dia, ganhar mimos, falar sobre seus direitos (aliás, a instituição do dia muito tem a ver com eles), mostrar sua igualdade ou ainda apenas ignorar a existência dele (ainda que isso me pareça difícil); ótimo, não há problema algum nisso. Apenas não vamos deixar de lado o respeito, a valorização da mulher, o bom senso e a equidade durante o ano todo.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Um Rombo na Humanidade

“Fazia duas horas que ela estava olhando para baixo sem saber o que falar. Você já esteve em alguma situação na qual se encontrou sem palavras, de um jeito negativo? São dias como esses que nos fazem querer nunca ter nascido, ainda que isso soe muito forte. Que ser humano é de pedra a ponto de nunca ter se sentido fraco e inerte? No caso de Andressa não era a primeira vez... A primeira vez da qual se lembrava era de quando tinha apenas 13 anos.
Há algum tempo suas amigas a perguntavam por que ainda usava só sutiã de pano, daqueles fininhos, ela já estava muito moça. Sabia disso, mas não se sentia assim mentalmente, para ela ainda era apenas uma menina. Só que o nosso corpo não pensa muito assim. Como por fora estava se tornando mulher, por dentro ainda era só criança. Porém, sua nova preocupação era sobre a menstruação, ainda nos primeiros meses não sabia identificar quando viria ou não, morria de medo de que viesse em alguma hora ruim. Seu medo foi tanto que acabou se tornando realidade. 
Certo dia seu coleguinha de sala, o qual sentava atrás dela, começou a rir, então ela percebeu o que havia ocorrido e se sentiu muito constrangida. Correu ao banheiro na tentativa de reverter o estrago, nada que um casaco na cintura não encobrisse. Ainda assim deixou que as lágrimas escorressem por sua face antes de retornar a sala. Pareça forte- dizia para si mesma. Ser mulher tem dessas. Ser mulher não é tão simples quanto pode parecer. Ainda mais sob falsos estereótipos.
Falando deles, não demorou muito para que começasse ouvir frases caçoando um colega que era muito sensível. Aquilo a afligia muito, porque geralmente a chamavam de sensível em tom de elogio, o que ela não se importava, ainda que houvesse dias que não concordasse com toda essa aparente fragilidade. Parecia que sempre estavam esperando uma determinada atitude de todos. Talvez por isso tentasse ser o mais autêntica e independente o possível, ela odiava a ideia de ter de esperar outrem para abrir uma garrafa de coca-cola, se ela fosse capaz de fazê-lo.
Aos poucos foi sentindo o peso nos ombros de ter nascido mulher. Porém, ainda assim, amava ser mulher, gostava de ser feminina a seu modo, e não se importava nem um pouco com o que esperavam dela. Ela é quem sabia quem era. E pensava que isso estivesse muito bem resolvido, pelo menos até aquele dia. Até o dia em que enquanto andava na rua, dois rapazes aparentemente alterados pegaram-na pelo braço e pediram-na pra ficar quieta. Ela sabia o que iria acontecer, sabia, então gritou, alto, bem alto. 
Quando aquelas mãos asquerosas lutavam contra as dela na tentativa de tirar-lhe a roupa, ouviu um grito. Solte a menina agora! Eu já chamei a polícia!- vinha de um senhor que saíra da casa ao lado. Um suspiro de alívio saiu de sua boca trêmula quando aquelas mãos lhe soltaram e foram para longe. Uma senhora saiu e a chamou para sentar e tomar um copo d'água enquanto a polícia não chegava.  Foi difícil, dolorido, deixar as palavras saírem na delegacia. Saíram lentamente, para se tornarem mais um caso arquivado. 
Quando sua família foi buscá-la tentou explicar da forma mais sucinta. Pediu silêncio e se dirigiu ao quarto. Estava estupefata. Perguntou-se onde estava a humanidade, educação, racionalidade e igualdade nesse momento. Ela saíra ilesa tendo em conta o que poderia ter acontecido. Mas e as outras? Todas as outras assediadas todos os dias? Não tinha palavras, não tinha lei, não tinha lágrimas que tapassem esse rombo na humanidade."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Central do Brasil"

Não é um tanto quanto curioso o fato de que parecemos não prestigiar tanto o cinema nacional quanto prestigiamos o cinema internacional? Ora, parece que o pensamento de que cinema brasileiro só produz filmes escrachados domina a mente da maioria dos brasileiros. Enquanto isso, nossos filmes fazem sucesso em premiações nacionais e internacionais. E nessa situação de busca por filmes brasileiros de qualidade é que me foi recomendado o filme "Central do Brasil", obra responsável pela indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e  Melhor Atriz, para Fernanda Montenegro.


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Data de lançamento: 3 de Abril de 1998
Direção: Walter Salles
Duração: 1h 45min 
Gênero: Drama
Nacionalidade: Brasil, França
Sinopse: Dora (Fernanda Montenegro) trabalha escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ainda que a escrivã não envie todas as cartas que escreve - as cartas que considera inúteis ou fantasiosas demais -, ela decide ajudar um menino (Vinícius de Oliveira), após sua mãe ser atropelada, a tentar encontrar o pai que nunca conheceu, no interior do Nordeste.
Opinião:Apesar de já contar com alguns anos nas costas, o longa ainda representa a realidade de grande parte da população. Dora serve de intermediária para pessoas analfabetas, escrevendo cartas para eles enviarem a seus amigos e entes queridos. No entanto, nossa protagonista não apresenta uma índole das mais incorruptíveis, como fica bem claro durante o longa, e lucra em cima das cartas que não envia por achar desnecessárias. Uma dessas cartas é a de uma mãe informando o pai sobre seu filho. Dora, por sua vez, escolhe não enviá-la, o que ela não esperava era que um acidente roubasse a vida da pobre mãe...
Sem família ou qualquer lugar para morar, o menino fica perdido e passa a dormir na estação. Dora vendo isso resolve tomar uma atitude. Ainda que fique a pergunta se ela fez isso apenas por pena ou por remorso. Nesses percalços, ela deixa o menino nas mãos de perigosos traficantes de  crianças, mas mostrando sua humanidade, mais uma vez, foge com o jovem para levá-lo até seu pai no interior do nordeste.
Nessa viagem, observamos o relacionamento dos personagens se estreitar e o surgimento de um sentimento quase filial. Sua humanidade se mostra tanto em sua atenção para com o pequeno, em sua moral conflituosa com a ética e nos questionamentos quanto a seu sentimento de feminilidade, o qual é abordado sutilmente durante o longa. Simultaneamente conhecemos o temperamento não tão fácil do garoto, os seus sonhos pueris e sua carência afetiva. Não é por menos que o filme é contemplado por todo o mundo.A direção do filme é de qualidade, e ressalta uma boa qualidade e potencial. O roteiro também não deixa por desejar. Mas o grande destaque da obra é a atuação, não é por menos que Fernanda Montenegro é tão contemplada no Brasil e no exterior. A verossimilhança da obra em seu contexto geral é reforçada pela atuação sensível da protagonista.
Falar sobre Central do Brasil é falar sobre o brasileiro, muitas vezes de moral duvidosa, pouco estudado, pobre e sonhador. Falar sobre esse filme é dizer que existe esperança, que todos temos humanidade dentro de nós. É dizer que a sociedade corrompe, muitas vezes, e que a vida não é um conto de fadas. Mas acima de tudo, poder contar-lhes sobre esse filme é abrir portas para a esperança de um cinema nacional cada vez de maior qualidade e questionador
.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O Mundo de Sofia

O Mundo de Sofia

Foi preciso de meses para achar, dias para ler, horas para refletir e uma vida para entender... Escolhi no dia de hoje a brilhante obra do norueguês Jostein Gaarder, a qual se tornou um dos meus livros de cabeceira, para abordar das grandes reflexões da humanidade. Já se passaram meses desde que a li e até hoje não consegui deixar de pensar nela. Então definitivamente posso dizer, antes mesmo da resenha, a minha sentença: vale a pena ler, muito!

Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012 
Páginas: 568
Idioma: português 

Sinopse:

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Møller Knag, garota a quem Sofia também não conhece.
O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.

Opinião: 
Imagine só, você recebendo cartas anônimas repletas de perguntas e indagações sobre a vida, e mais louco ainda, estas cartas aparecem misteriosamente em seu correio destinadas a outra pessoa? Como se a situação em si já não fosse o suficiente para se enlouquecer, as reflexões contidas nas cartas são aquelas as quais fazemos desde nossa existência. Acompanhando a trama da personagem vemos toda história da filosofia sendo contada, da Grécia ao período moderno. 
Durante o decorrer dos fatos, conhecemos a mãe de Sofia, quem acha que ela está ficando louca, seu pai distante e sua amiga Jorunn. Sofia percebe que quase todos estão na base da pelagem do coelho (já abordei isso aqui antes), satisfeitos em sua própria realidade, enquanto através da filosofia, nossa jovem aprende a subir até a pontinha do pelo do coelho para enxergar o universo de mente aberta. Aproveito a deixa, para mencionar um breve trecho do capítulo referente a Espinosa de grande reflexão:
"Algum dia, a trinta mil anos, um garotinho habitou o vale do Reno, onde hoje é a Alemanha. Ele era uma parte pequenina da natureza, uma gotinha num oceano imenso. Você também, Sofia, é uma parte ínfima da natureza. Entre você e aquele garoto não existe nenhuma diferença."
A forma didática e linear que o autor traz a filosofia para dentro da história desemboca em uma organicidade sem igual. Não creio que sejam muitos livros os quais consigam trazer as mais vastas lições de forma tão consistente. A trama fica mais e mais curiosa quando Sofia conhece seu misterioso remente, o filósofo Alberto, e começa a receber objetos pessoais de Hilde. 
Simultaneamente nos contextualizamos com cada período histórico e a construção do pensamento ocidental. Como aborda o próprio livro, dizer "De que vale, afinal, o eterno criar, se toda a criação se desfaz no ar?"( frase do livro Fausto de Goethe) não é a questão, mas passar o conhecimento adiante e inspirar as futuras gerações. Pois nossa história é toda uma construção, da qual também fazemos parte, seremos história no futuro, não é mesmo?
É por essas razões que não posso negar a importância dessa obra para meu conhecimento de mundo, além do imenso prazer sentido ao lê-la; mesmo com suas muitas páginas e o volume de informação. Por favor, não pense que o livro é maçante ou chato em instante algum, acho que se fosse nunca teria vendido mais de 1 milhão de exemplares no Brasil, pra começo de conversa. E particularmente, eu creio na possibilidade desse livro também te ajudar a escalar mais e mais a pelagem do coelho.  E sabendo sobre a dialética como grande instrumento da filosofia, concluo com um questionamento: Porque é mais cômodo viver na base da pelagem do coelho?
"Mas a vida é triste e solene. Somos deixados num mundo maravilhoso, encontramo-nos aqui com outras pessoas, somos apresentados uns aos outros e caminhamos juntos durante algum tempo. Depois nos separamos e desaparecemos tão rápida e inexplicavelmente quanto surgimos."-O Mundo de Sofia