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quarta-feira, 12 de abril de 2017

“Pra bom entendedor, meia palavra basta”

"Estava ao som de Cálice na voz de Chico Buarque e Milton Nascimento quando pensei nesse ditado popular. A música sob suas interpretações é clara e direta. Tão direta quanto mortes causadas por balas perdidas, você sabe que alguém foi atingido e que alguém disparou, mas não sabe quem apertou o gatilho nem onde, é o que está além do que se pode ver. Perdoe-me por não saber lidar com sentimentos ( e pela minha analogia mal feita), pelo menos não como a sociedade gostaria, mas tudo bem, não sou um robô. Lembro-me de chorar um bocado de vezes assistindo filmes de robôs, aquilo de não ter sentimento me deixava tão triste, mas tão triste que não aguentava. Só tinha de fechar os olhos e engolir o choro quando estava vendo filme com meus primos e amigos "másculos", afinal, nenhum deles parecia aceitar a ideia de que homem também tem sentimento.
Sou tão intenso quanto a aos sentimentos que me pergunto se alguma moça a procura de seu perfeito 'Ken' aceitaria uma pessoa tão densa como eu.  Afinal, atrás do que as pessoas estão, no amor, na amizade, nos negócios ou na guerra. Sim, todos estão à espera de atitudes óbvias, claras, de pessoas mecanizadas, nem tão rasas nem tão profundas. Se é raso demais torna-se chacota, e ao invés de tentar te inundar, tentam apenas vomitar informações condensadas e prontas em você. E se é intenso demais, bem, é segregado, o especial, o diferente, o estranho... Não me interessa o que esperam ou deixam de esperar de mim, só queria que as pessoas tentassem entender um pouco dessa minha densidade.
Veja bem, meia palavra basta? Meia palavra basta quando há milhares de pessoas morrendo em guerras, quando meias palavras distorcem religiões em fundamentalismos, meia palavra basta quando a intolerância mata milhares de pessoas todos os anos debaixo do nosso nariz? Talvez nenhuma palavra seja suficiente para bastar quando se trata de toda nossa esdrúxula política. Talvez nenhuma palavra baste quando falamos da dor que sentimos. Talvez ainda não seja necessária nenhuma palavra para bastar o amor que sinto toda vez que olho aqueles  olhos...
Palavras apenas, palavras pequenas, palavras ao vento... Sempre tentei entender como funcionava esse negócio de comunicação. As pessoas riem umas das outras, de suas más expressões, seus sotaques, suas faltas de palavras, seus excessos, suas palavras grosseiras, suas palavras sorrateiras, porém, ninguém parece tentar entender as palavras. Não se dão conta de que há gênios não descobertos porque são analfabetos. Nem percebem que a sabedoria habita os cantos mais curiosos.
Resultado de imagem para homem alistamento militarVejo guerra e vejo dor, vejo palavras mal ditas, meias palavras e meias verdades. Sinto ainda que jamais entenderei o mundo em sua totalidade, porque não domino as palavras. Enquanto o suor escorre pela minha testa espero na fila para ser chamado: Alistamento militar obrigatório. Não há cálice, nem cale-se, que me faça engolir ou entender quanto ao universo no qual estou em que cada país precisa de um exército. Em que a guerra é "necessária" e em que o ser humano precisa destruir o outro para sobreviver. Jamais, me lembre disso se eu vier a esquecer, deixarei que meias palavras bastem, que o ódio baste, e que o cálice baste.”


quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Pequeno Príncipe

Qual livro escolher em um mês tão importante para literatura infantil senão "O Pequeno Príncipe"? Mas antes de qualquer coisa, porque esse mês é tão importante? É em abril que se comemora o Dia Mundial da Literatura Infantil, mas especificamente no dia 02, no qual nascia o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, autor de A Pequena Sereia, O Patinho Feio dentre outros clássicos. Ainda nesse mês, comemora-se o Dia Nacional da Literatura Infantil, 18-04, data de nascimento de Monteiro Lobato, grande autor brasileiro eternizado por O Sítio do Pica Pau Amarelo. Caso se interesse em saber um pouco mais desse dia, há um ano o Blog apresentou sua história em comemoração a essa data. Tudo isso, para em fim, dizer que precisamos falar sobre O Pequeno Príncipe!

O Pequeno Príncipe
Editora: Geração Editorial
Ano: 2015
Páginas: 160
Idioma: Português 

SinopseUm piloto cai com seu avião no deserto e ali encontra uma criança loura e frágil. Ela diz ter vindo de um pequeno planeta distante. E ali, na convivência com o piloto perdido, os dois repensam os seus valores e encontram o sentido da vida. 
Com essa história mágica, sensível, comovente, às vezes triste, e só aparentemente infantil, o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry criou há 70 anos um dos maiores clássicos da literatura universal. Não há adulto que não se comova ao se lembrar de quando o leu quando criança. 
Trata-se da maior obra existencialista do século XX, segundo Martin Heidegger. Livro mais traduzido da história, depois do Alcorão e da Bíblia, ele agora chega ao Brasil em nova edição, completa, com a tradução de Frei Betto e enriquecida com um caderno ilustrado sobre a obra e a curta e trágica vida do autor.

Opinião: Saint-Exupéry começa o livro pedindo perdão às criança por dedicar esse livro a um adulto, e elenca inúmeras desculpas para isso, incluindo o fato de que este adulto um dia já fora uma criança. E de fato, se é criança ou adulto, precisa lembrar da criança que é ou já foi para ler e apreciar essa bela obra. Nosso narrador é um piloto tentando arrumar seu avião após um pouso de emergência no deserto do Saara, aonde encontra um pequeno príncipe. Esse pequenino, lhe pede, a priori, para desenhar um carneirinho, porém, nosso autor não se mostra mui talentoso na arte de desenhar, já que como ele menciona na obra, fora desencorajado na infância. 
Ao conversarem sobre suas origens, o Pequeno Príncipe começa a contar-lhe sua história, como havia, afinal, ido parar naquele lugar? Nosso menino vinha de um planeta tão pequeno como uma casa, daqueles que são chamados pelos astrônomos de Asteroide mais um número,e não nome.  Pois, como nosso querido autor diz, Adultos adoram números... "Eles são assim mesmo. Nem por isso devemos lhes querer mal. As crianças precisam ter muita paciência com os adultos."
O planeta do nosso pequenino era cuidado todos os dias por ele, esse mesmo ainda possibilitava que o pôr do sol fosse visto várias e várias vezes de tão pequeno que era, e isso pode ser bom, quando se está triste...O principezinho vai mostrando ao piloto os riscos de ser adulto e só pensar em coisas sérias. Como, por exemplo, menciona um sujeito vermelho que morava num planeta sozinho fazendo contas, sem contemplar estrelas ou viver nenhum amor. Falando de amor, a maior preocupação do pequenino era com o bem estar de sua rosa, única em seu planeta, quem ele acreditava ser a única no mundo.
Um belo dia resolveu visitar o mundo, cuidou dos vulcões de seu planeta, até do extinto, por segurança, e aproveitando uma revoada de pássaros voou além... O primeiro asteroide  visitado era habitado por um rei que buscava exigir de cada um o que cada um podia dar, sua razão era baseada na sensatez. No segundo, havia um vaidoso, quem vivia sozinho e ainda se denominava melhor que todos os outros. Bem, o terceiro foi o que deixou o pequenino mais triste, conheceu um bêbado que bebia para esquecer a vergonha que tinha de ser bêbado. " Os adultos são mesmo muito estranhos, disse a si mesmo ao longo da viagem".No quarto, foi que encontrou o homem de negócios que contava as estrelas pensando que isso lhe fazia dono delas O quinto planeta era tao pequeno que só cabia o um acendedor de lampião, seu trabalho até parece útil ao olhos do menino, se não fosse o fato de que era feito sem parar e para seguir apenas o regulamento: apagando e acendendo o lampião ao nascer e pôr do sol, o planeta girando cada vez mais rápido e o sujeito apenas seguindo-o incessantemente. Qualquer semelhança com a realidade merece reflexão. No sexto planeta, encontrou um geógrafo, quem de nada na realidade conhecia, apenas na teoria... Ao menos apresentou a Terra ao nosso pequeno príncipe.
Terra, sétimo e último planeta que o príncipe visitou, recheada por cerca de 7 bilhões de adultos. A procura de pessoas, no deserto em chegou encontrou uma serpente, uma flor - a qual diferente dos seres humanos criam raízes, uma montanha, várias rosas, uma raposa , um despachante e um vendedor de pílulas destinadas a amenizar a sede para economizar tempo. Quando se deu conta de que sua rosa não era a única no universo e de que seus vulcões não eram grande coisa deu-se a chorar. Então, conheceu a raposa, quem lhe ensinou o significado de cativar e tornar-se único no mundo. "As pessoas já não tem tempo de conhecer nada. Preferem comprar tudo pronto nas lojas. Como não existem lojas que vendem amigos, as pessoas não tem mais amigos. Se quer um amigo, trate de me cativar."
Quase morrendo de sede, o piloto e o príncipe encontram o prazer em um gole d'água de um poço no meio do deserto. Para cada um, depois, seguir o seu caminho e entender o verdadeiro sentido da vida. O Pequeno Príncipe, é um livro doce e singelo, contar-lhe mil vezes e comentar todos os seus detalhes jamais resumiriam o prazer sentido ao lê-lo. Pois bem, lhes convido, leiam, sintam e entendam, porque "O essencial é invisível aos olhos'.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Um Rombo na Humanidade

“Fazia duas horas que ela estava olhando para baixo sem saber o que falar. Você já esteve em alguma situação na qual se encontrou sem palavras, de um jeito negativo? São dias como esses que nos fazem querer nunca ter nascido, ainda que isso soe muito forte. Que ser humano é de pedra a ponto de nunca ter se sentido fraco e inerte? No caso de Andressa não era a primeira vez... A primeira vez da qual se lembrava era de quando tinha apenas 13 anos.
Há algum tempo suas amigas a perguntavam por que ainda usava só sutiã de pano, daqueles fininhos, ela já estava muito moça. Sabia disso, mas não se sentia assim mentalmente, para ela ainda era apenas uma menina. Só que o nosso corpo não pensa muito assim. Como por fora estava se tornando mulher, por dentro ainda era só criança. Porém, sua nova preocupação era sobre a menstruação, ainda nos primeiros meses não sabia identificar quando viria ou não, morria de medo de que viesse em alguma hora ruim. Seu medo foi tanto que acabou se tornando realidade. 
Certo dia seu coleguinha de sala, o qual sentava atrás dela, começou a rir, então ela percebeu o que havia ocorrido e se sentiu muito constrangida. Correu ao banheiro na tentativa de reverter o estrago, nada que um casaco na cintura não encobrisse. Ainda assim deixou que as lágrimas escorressem por sua face antes de retornar a sala. Pareça forte- dizia para si mesma. Ser mulher tem dessas. Ser mulher não é tão simples quanto pode parecer. Ainda mais sob falsos estereótipos.
Falando deles, não demorou muito para que começasse ouvir frases caçoando um colega que era muito sensível. Aquilo a afligia muito, porque geralmente a chamavam de sensível em tom de elogio, o que ela não se importava, ainda que houvesse dias que não concordasse com toda essa aparente fragilidade. Parecia que sempre estavam esperando uma determinada atitude de todos. Talvez por isso tentasse ser o mais autêntica e independente o possível, ela odiava a ideia de ter de esperar outrem para abrir uma garrafa de coca-cola, se ela fosse capaz de fazê-lo.
Aos poucos foi sentindo o peso nos ombros de ter nascido mulher. Porém, ainda assim, amava ser mulher, gostava de ser feminina a seu modo, e não se importava nem um pouco com o que esperavam dela. Ela é quem sabia quem era. E pensava que isso estivesse muito bem resolvido, pelo menos até aquele dia. Até o dia em que enquanto andava na rua, dois rapazes aparentemente alterados pegaram-na pelo braço e pediram-na pra ficar quieta. Ela sabia o que iria acontecer, sabia, então gritou, alto, bem alto. 
Quando aquelas mãos asquerosas lutavam contra as dela na tentativa de tirar-lhe a roupa, ouviu um grito. Solte a menina agora! Eu já chamei a polícia!- vinha de um senhor que saíra da casa ao lado. Um suspiro de alívio saiu de sua boca trêmula quando aquelas mãos lhe soltaram e foram para longe. Uma senhora saiu e a chamou para sentar e tomar um copo d'água enquanto a polícia não chegava.  Foi difícil, dolorido, deixar as palavras saírem na delegacia. Saíram lentamente, para se tornarem mais um caso arquivado. 
Quando sua família foi buscá-la tentou explicar da forma mais sucinta. Pediu silêncio e se dirigiu ao quarto. Estava estupefata. Perguntou-se onde estava a humanidade, educação, racionalidade e igualdade nesse momento. Ela saíra ilesa tendo em conta o que poderia ter acontecido. Mas e as outras? Todas as outras assediadas todos os dias? Não tinha palavras, não tinha lei, não tinha lágrimas que tapassem esse rombo na humanidade."

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Intolerância Religiosa no Brasil

Chegamos ao temido assunto, ao tema da esperada redação do Enem de 2016. Mas afinal, você acha que existe intolerância religiosa no Brasil? Em termos históricos, o Brasil já passou por um longo processo de segregação religiosa, enquanto ainda era colônia o país recebeu também os ventos da Santa Inquisição. Mas parece estranho pensar em intolerante um país que desde sua independência apesar de se intitular um país cuja religião oficial era a Católica, permitia a liberdade de culto, isto é, em 1824, na nossa primeira Constituição. Como podem conviver no mesmo país duas situações tão opostas?
Os resquícios desse passado perpetuam até hoje, e é o que podemos observar nas ironias do dia a dia. O nosso país é laico e teoricamente liberal, mas no cotidiano, como nas redes sociais, o que vemos são cada vez mais discursos de ódio. Essa dicotomia reflete, por exemplo, na estigmatização das culturas de origem africana e a banalização da fé cristã. Chamar todos os pastores de ladrão, os padres de pedófilos ou as religiões afro-brasileiras de "macumbeiras" (de forma ofensiva e genérica), dentre outros termos pejorativos, além de ofensivo é antiético, e por vezes crime. Prossigo, o preconceito alcança a todos, também as religiões tidas como minoritárias como o espiritismo, judaísmo, budismo, islamismo ou até a não-religião do ateísmo às vezes sofrem agressões.
Quem nunca viu alguém debochando de alguma religião alheia? No plano formal, as religiões têm todo o direito de terem seus conflitos, mas em termos práticos essas diferenças não deveriam agredir a vida das pessoas. Não parece sensato que a ideia da "fé' que se materializa no "amor" (o que pode ser visto majoritariamente nas correntes religiosas), seja concluída no termo das religiões e acabem por agredir tanto umas as outras. Segundo o nosso Estado de Direito, nós temos direito a professar a religião de nossa preferência, inclusive temos o direito de não praticar nenhuma religião.¹
Nos dias atuais (na verdade, parece-me que desde sempre), temos visto um certo extremismo nas posições das pessoas, por hora relatarei um episódio histórico para mostrar a contradição do ato do extremismo. Eichmann, oficial da organização nazista durante a Segunda Guerra Mundial, encaminhou muitos judeus para a morte e inclusive presenciou assassinatos. No entanto, em seu julgamento alegava não se sentir culpado, porque havia seguido o "imperativo categórico" de Kant², ou seja, estava apenas obedecendo a ordens, contou em seus relatos inclusive que não tinha nada contra o judaísmo, tanto que ele e alguns amigos tinham namorado judias. Em termos gerais, parece sem sentido se posicionar de forma extrema em uma sociedade tão globalizada e plural, em que nos relacionamos com indivíduos dos mais variados credos.
Apesar de ser possível alegar que o contexto é diferente, afinal, aqui no Brasil a intolerância religiosa não mata ninguém (a princípio), ele me parece bastante válido. Primeiro, que isto é até onde sabemos. Depois, pois não podemos afirmar que a razão de alguns suicídios os quais ocorrem pelo país não tem cunho religioso. E também, porque a agressão psicológica por vezes é tão incidente quanto à física.
O nosso sincretismo religioso visto de forma tão utópica pela ideia da união do branco, do negro e do índio, é de se questionar. Falar que não existe intolerância religiosa no Brasil é tão ingênuo como dizer que não existe racismo, machismo ou homofobia no mundo.  E não, isso não é coisa da esquerda ou direita, definitivamente essa é uma questão humanitária. Se Martin Luther King não tivesse saído da sua zona de conforto e lutado pelos direitos dos negros, o que seria dos EUA agora? Talvez a eleição de Donald Trump fosse o menor dos problemas.
Ninguém é proibido de apresentar sua fé a outrem, ninguém é proibido de manifestar a sua fé e de apresentar seu ponto de vista, não somos proibidos de fazer isso. Apenas devemos saber que em tudo há um limite, não é na bala, nos xingamentos e em nenhuma forma do tipo que iremos resolver nossas divergências, como “crianças birrentas”. Se até dentro de uma mesma religião há divergências, quem somos nós para achar que todos irão pensar igual? Todos temos o direito de professar o que acreditamos, seja o que for, e precisamos ser tolerantes o suficientes para lidar com isso, senão estaremos fadados a autodestruição.
Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.
Evelyn Beatrice Hall- Biógrafa de Voltaire”


¹ A Constituição Federal, no artigo: 5° VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias.
²Abordagem retirada do livro “Eichmann em Jerusalém” de Hannah Arendt.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Um Valor Que Não Tem Preço

"Não sei quantas vezes já me peguei pensando nisso, mas sabe, todo mundo tem seu valor. Não interessa quem é. Rico ou Pobre. Alto ou Baixo. Gordo ou Magro. Branco ou Negro. Entre as variadas culturas, etnias, peculiaridades e gostos. Todos têm o seu valor. Ninguém cai nesse mundo de gaiato, para ser um ninguém, ninguém é ninguém. Até o fato do não ser, já é algo. Entre o mendigo na rua, o garçom no restaurante, o advogado engravatado e o empresário multimilionário há algo em comum. Prossigo; entre o chinês, o marroquino, o norueguês, o americano e o brasileiro há muito em comum. Do jovem ao velho. Entre todos no mundo, há sempre algo em comum.
ALMA
Acredite ou não nisso. Não é preciso interligar isso a nenhuma religião. Mas me parece que há alguma coisa intrínseca ao seu humano. É essa essência impregnada que nenhum Frankenstein é capaz de criar. Está no que sentimos quando nos apaixonamos. Nesse coração que palpita quando pensa em algo que gosta. Só neurônios. Talvez. Mas esse emaranhado tão específico de genes, memórias e tudo que há de bom (ou não tão bom) é tão único e tão pessoal que é inegável como a essência da vida está em cada um de nós.
Você vive e sonha, ainda que negue sonhar. Você sente, nós sentimos. Você existe. Descartes já disse. Não adianta fugir. Não adianta se esconder por detrás de mentiras, ficções, ilusões ou segredos. Todos sabemos dessa realidade. Você, alto senhor brasileiro, poderia por alguma alteração nesse estranho equilíbrio do universo ser um baixo moço angolano? Porque não? Porque se deter à respostas prontas e tão endurecidas ao invés de entender que há tanto mais entre o céu e a terra, tão mais do que entende a filosofia... Não somos feitos para isso, meu caro? Para filosofar?
Nessa noite escura e soturna que me deixa embriagada de algum sentimento inexplicável, filosofo. É nessa noite mesmo, que eu existo. Esse pleno ato que nos une e nos dá valor. Podemos até não aceitar, mas sabemos, sabemos que todos temos valor. Todos existimos, em nossos defeitos e qualidades, erros e acertos, quedas e ascensões, corrupções ou esperanças. EXISTIMOS..."

domingo, 24 de julho de 2016

Menos preconceito, mais tolerância

"O primeiro homem que cercou um pedaço de terra e disse que era sua propriedade e encontrou pessoas que acreditaram nele foi o fundador da sociedade civil. Daí vieram muitos crimes, muitas guerras, horrores e assassinatos que poderiam ter sido evitados se alguém tivesse arrancado as cercas e alertado para que ninguém aceitasse este impostor. Não podemos esquecer que os frutos da terra pertencem a todos nós e a terra a ninguém" Sem conhecer a autoria do texto, pode-se facilmente ler e acreditar que Marx ou algum revolucionário (lê-se esquerdista) o escreveu, não é mesmo? Ledo engano, esse trecho pertence a Rousseau, grande teórico da democracia. 
Poderia eu parodiá-lo e dizer que "O primeiro homem que cercou um punhado de ideias e disse que eram certas e encontrou pessoas que acreditaram nele - e outras que discordaram- foi o fundador do preconceito." Parece estranho, não é mesmo? Que nossa sociedade tão democrática ( será?) visualize pensamentos de crítica às estruturas sociais ou à mentalidade formal das pessoas como esquerdista ou qualquer coisa do gênero. 
Mas não, não estou aqui para discutir direita e esquerda. Longe de mim querer escolher entre um dos lados, afinal, isso seria me contradizer. Quando tento não polarizar a sociedade estou fazendo uma crítica ao preconceito; a toda espécie de preconceito. Não serei hipócrita, é claro, para dizer que não os tenho, todos temos, infelizmente.
O primeiro preconceito que perpetua milênios, isso mesmo, milênios: Povos sempre tiveram preconceitos entre si. Ser hostil com o diferente parece intrínseco ao ser humano, seria um mecanismo de defesa? Deixo essa pergunta para a psicologia. Mas fato é que o ser humano é preconceituoso contra as etnias diferentes da sua, e só pela educação e conhecimento é que superamos isso. Sem estigmatizar um preconceito de brancos versus negro, mas no sentido geral, de todos contra todos. Ou vai me dizer que não existe preconceito contra asiático, europeu ( talvez no ocidente não tanto, porque aqui eles são referência, mas nem todo mundo gosta da Europa), árabes, indígenas e até contra os brasileiros. (Sim, nem todo mundo nos ama!). Sempre que penso nesse tipo de preconceito, vejo como somos mais animais do que racionais...
Outro tipo de preconceito bastante antigo é contra o físico, mas não por questões étnicas, como a cor da pele, mas contra o modelo físico. Em épocas, ser gordo era bem visto, em outras, magro; em épocas nariz grande era bem visto, em outras, não... A cada dia mais vemos como esse tipo de preconceito se fragmenta, porque são tantas opiniões divergentes que é difícil ele se consolidar.(Ufa! Que bom!)  Ou vai me dizer que nunca olhou para alguém com o olho meio torto e deu uma risada interna? Mas tudo bem, o quesito de beleza faz parte da atração humana. Só tento não deixar que os estereótipos quanto à aparência sejam levados as últimas consequências ou me impeçam de conhecer as pessoas.
Falando de estereótipos chegamos a outro preconceito milenar. ( É impressão minha, ou o ser humano desenvolveu preconceito antes mesmo de descobrir o fogo?) A religião vem criando embates desde... Desde quando? Desde sempre, eu acho. Se parar para pensar ninguém tem a mesma fé, as pessoas podem até seguir os mesmos dogmas, seres superiores, e bases de origem, mas todas pensam diferente. Ninguém conceitua sua fé do mesmo jeito, o que é completamente natural, talvez seja porque  não somos máquinas! (pelo menos, não ainda). Pensando deste modo, ter preconceito contra a crença dos outros parece absurdo, mas é real.  Quer provas do que eu digo? Pergunte a duas pessoas da mesma fé para conceituarem Deus, em suas próprias palavras. Elas dirão a mesma coisa, certo? Errado, provavelmente eles descreverão de forma bem diferente, ainda que com palavras similares, por causa do seu livro religioso e orientadores (padre, pastor, sacerdote...), se este for o mesmo. Mas deixemos esse assunto por aqui, porque isso de fato é algo para se endoidecer. Fiquemos apenas coma  ideia de que é preciso conhecer as diversas religiões e entender que assim como você não gosta de ter sua crença ofendida, os outros também não gostam. Poderia me delongar durante dias falando sobre esse tema mais vou me conter aqui. Concluirei a mensagem de forma genérica: Deixar que alguém te imponha certa ideia e diga que ela é certa ou melhor do que a do outros é ignorância e falta de bom senso. É interessante pensar que Hitler era só um homem com preconceitos, em quem as pessoas acreditaram, com poder. Quem cada um de nós seria se tivesse poder? Um Calígula? Ou um Nelson Mandela? Sem mais vitimização, sem mais preconceito e com  mais tolerância.
Giovana de Carvalho Florencio 
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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Os dias em que dá vergonha de ser "ser humano"

Tem alguns dias em que seriamente sinto vergonha de ser "ser humano". Nós, no auge da nossa racionalidade (será?) nos tornamos cada vez mais egoístas. É cada um preocupado com seu próprio umbigo. A vida não é fácil, claro que não, tudo é corrido, aula, trabalho, leitura, amigos, problemas e quando dá lazer. Uma coisa é se preocupar consigo mesmo e sua autoestima, outra é ignorar o mundo ao nosso redor.
A princípio quero falar do primeiro caso que me chocou recentemente: o "estupro coletivo" da adolescente de 16 anos. Me entristece o fato de algumas pessoas justificarem o ocorrido com "ela mereceu", ou "se estivesse em tal lugar não teria ocorrido isso". Acho que não estamos mais no paleolítico para agirmos como animais, mas deveríamos usar a razão que nos foi dada. Parece que nosso país de raízes cristãs não aprendeu a lição de que ninguém deve atirar pedras uns nos outros, porque todos somos falhos, não é mesmo? E então entro no fato em si, a menina está com sua vida arruinada por causa de uns moleques ( não tenho palavra mais delicada para nominá-los) vazios, que não sabem respeitar outro ser humano e ainda querem expô-lo ao ridículo. A intimidade é uma das poucas coisas pessoais que temos domínio, colocá-la a exposição, ainda quando é por consentimento próprio, é deveras agressivo. E para deixar esse ocorrido como reflexão fica a mensagem: não são as marcas físicas, “digitais” e sociais que ficam, mas as psicológicas, afinal a vida dela e da família nunca mais será a mesma.
O segundo fato recente que me injuriou foi a morte do Gorila no Zoológico, em Ohio- EUA. Retirar o animal de seu habitat natural já é muito cruel, agora querer torná-lo o vilão da história é pior ainda. Não é possível prever as atitudes deste, nosso estudo da parte emocional e racional dos animais ainda está em desenvolvimento. Mas creio eu que o maior problema está na reincidência de ocorrentes de mortes a animais por descuido do homem. Os pais foram descuidados com a criança e  possivelmente  o zoológico poderia ter injetado um sedativo  no animal( ainda que em altas doses). E ao final das contas, quem são os animais que os zoológicos expõe? São animais recolhidos porque já estavam fora de seu habitat, como no caso do comércio ilegal de animais silvestres ou dos que já nasceram em reservas e zoológicos? Não sou contra zoológicos, acho que tem sua importância social e cultural, mas precisamos repensar como temos lidado com os animais.
E por fim, o recente ataque em Orlando. A que ponto chegamos, não é mesmo? Invadir uma boate, com a justificativa de ela atender público LGBT (justificativa de que, aliás?), e matar a queima roupa pessoas aleatoriamente. O que uma vida vale? Faz algum sentido utilizar a religião para retirar a vida de outrem? Creio que ainda é cedo para denominar o ato como terrorista, mas acredito que tenha um gancho nessa ideia. Povos antigos já sacrificavam aqueles que diferiam deles e ofereciam a seus deuses, infelizmente na Idade Média (e até certo tempo atrás ainda) a Igreja fez uma inquisição e matou todos aqueles que julgava impuros, errados, pecadores e por aí vai. Parece que o tempo passa e certas coisas não mudam nunca. 
Concluo com um pensamento e uma citação: Respeito é o essencial para vida, só devemos fazer para o outro, quem quer que ele seja, o que não nos importaríamos se fizessem para nós e ainda acima disso aceitar as diferenças e o espaço pessoal.(Afinal eu posso não gostar de algo que você gosta, por exemplo.)

"Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo."
Mahatma Gandhi

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1780998-massacre-em-orlando-o-que-se-sabe-ate-agora.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1779353-policia-do-rio-tenta-reconstituir-30-horas-em-estupro-de-garota.shtml



sábado, 28 de maio de 2016

Crônica- Linha 63

Mirela voltava todos os dias de ônibus para casa, porque ela basicamente estudava do outro lado da cidade. Era quase sempre o mesmo roteiro, mas aquele dia em particular a marcou. Esperara no ponto até 12:30. Espremeu-se igual a uma sardinha até que o ônibus parasse no terminal mais próximo, foi quando enfim conseguiu um lugar para sentar.
Pelos próximos quinze minutos apenas apreciou a paisagem das pessoas, uma mais diferente do que a outra. Encontrou de tudo, de uma senhora com o aparelho de audição desregulado a um casal apaixonado.  Algumas pessoas estavam ansiosas e sérias, prontas para ir trabalhar ou malucas para chegar em casa. Tinha uns dois que comiam uma paçoca e sorvete, tranquilamente, sem preocupações. E claro, tinha ela.
Mirela estava apenas sendo ela: observadora. E enquanto fazia isso sua mão agitada arranhava as unhas na calça, quem a visse juraria que estava nervosa. Foi então quando o ônibus parou em um ponto bem cheio e entraram muitas pessoas. Logo que viu uma senhora, ela se levantou e cedeu o lugar. Já em pé avistou um amigo sinalizando à uma senhora para sentar, mas pelo visto ele não foi muito bem entendido, porque esta se afastou gritando tarado! Mirela debulhou a rir.
Não estava tão longe do seu destino, pelas suas contas eram apenas mais cinco ou seis quadras. Enquanto não chegava lá cantarolava algo em sua cabeça, talvez Madonna ou  Beyoncé, mas ainda acho que seria U2. Ou algo mais para Coldplay. Ou ainda quem sabe uma mistura disso tudo. Foi uma música tão envolvente que quando se deu conta o ônibus estava passando pelo seu lugar de parada. Ela puxou a cordinha, mas não dava mais tempo, teve que esperar pelo próximo ponto.
Quando desceu estava muito agitada, não acreditava em sua distração. Agora teria de andar mais três quadras. Chamou-se de burra até chegar em casa e se estirar no sofá. Almoçou e meia hora depois ligou a TV para ver o jornal. O jornal local falava de um assalto terminado em morte naquele mesmo dia. Não disseram nome da vítima nem idade, apenas mencionaram que ela tinha acabado de descer do ônibus quando fora abordada por dois marginais que tentaram assaltá-la, mas pela negativa se assustaram e acabaram disparando a arma, uma 38, para ser mais específica.
Ela colocou a mão na barriga, seu estômago revirara, seria indigestão? Ou o sentimento conflitante de saber que alguém que estivera no mesmo ônibus que ela morrera? Podia ser a senhora da audição, o casal, a senhora para quem cedera lugar, o conhecido, alguém ansioso para chegar em casa e que nunca chegaria. Podia ser qualquer um!

A linha 63 a proporcionou vários aprendizados como ser humano. Várias paisagens de pessoas e realidades. Mas acima disso tudo, lhe proporcionara humanidade. Aquilo mudaria para sempre sua visão de mundo, sua visão de gente, de vida e de morte também... Ah e só para constar, quem fora morto era uma mulher quem Mirela sequer tinha prestado atenção, ela era só mais uma na sociedade, não é mesmo?
Giovana de Carvalho Florencio

sábado, 21 de maio de 2016

Resenha- O Sol é Para Todos



Oi, pessoal! Hoje estou aqui para falar sobre um livro incrível, escrito por Harper Lee. E o mais interessante é a visão apresentada. A perspectiva central, ou seja da personagem que narra os fatos,  é como se ela tivesse rememorando os fatos da infância dela e com uma visão muito angelical, aquela visão de quem está descobrindo o mundo.  O que suavizou fatos tão duros.



Editora: José Olympio- Record

Ano: 2015 
Páginas: 364
Sinopse:Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça.
O sol é para todos, com seu texto “forte, melodramático, sutil, cômico” (The New Yorker) se tornou um clássico para todas as idades e gerações.
Curiosidades:
• Com nova tradução e projeto gráfico, este clássico moderno volta à cena, justamente quando a autora lança uma continuação dele, causando euforia no mercado.
• Desde o anúncio de sua sequência, O sol é para todos é um dos livros mais buscados e acessados no site do Grupo Editorial Record.
• Já vendeu mais de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos e, no último ano, ganhou a recomendação do presidente Barack Obama, que proferiu o seguinte elogio: “Este é o melhor livro contra todas as formas de racismo”.
• Vencedor do Prêmio Pulitzer.
• Escolhido pelo Library Journal o melhor romance do século XX.
• Eleito pelos leitores de Modern Library um dos 100 melhores romances em língua inglesa.
• Filme homônimo venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado.

Sobre o livro:
A história se passa no interior dos EUA no Alabama, em uma cidade chamada Maycomb, e basicamente aborda sobre o preconceito, tendo como foco o racismo. Mesmo em  obras como 12 anos de escravidão ou em E o Vento levou não vemos uma visão com um embate tão reflexivo sobre o preconceito, principalmente no cotidiano.
Como eles lidavam com essa situação, na época? Eles simplesmente achavam isso muito normal, com um certo pensamento de que uns eram inferiores aos outro. E olha que alguns ainda pensam assim. Sendo que já sabemos que somos só uma raça, porque as diferenças genéticas são mínimas. A partir daí começamos a refletir sobre muitas coisas.
O livro é divido em duas partes, a primeira conta sobre os personagens. A protagonista, Jean Louise, a quem todo mundo chama de Scout e o irmão dela- Jeremy, mas chamado por Jem, são os personagens centrais. O livro mostra a fase de crescimento deles, e a puberdade dele, aquela fase de 10 a 13 anos. O interessante é que podemos acompanhar o amadurecimento dos personagens.  
Tem algumas partes engraçadas também. Um amigo deles, Dill,  vai todo verão passar as férias na casa da tia. Ele e Scout tem um amor muito puro e infantil, eles brincam que são noivos.  Há um dia que sua tia vai morar com a família no intuito de instruí-los, já que as crianças são órfãs de mãe. Essa tia diz para Scout que vai acompanhar seu crescimento até esta se tornar uma mulher, ensinar a se portar como tal para o dia em que começar a gostar de rapazes. A menina fica abismada com a ideia de gostar de um menino, sendo que é "noiva" de Dill. Essa doçura com que os personagens são mostrados é muito bacana.
Essa tia deles é muito mandona, ela se preocupa muito com o nome da família, com as aparências e tal, mas ainda assim não é uma pessoa má, como vamos percebendo ao longo do livro. Tem a funcionária deles, que é uma negra chamada Calpúrnia. Eu realmente gostei dela, ela demonstra ser uma pessoa muito forte. Tem uma parte que ela leva os meninos para a igreja dela, a qual era só para negros. Eu pensei “nossa, que coragem". Porque existia o preconceito contra os negros, mas também dos negros contra os brancos. Eles não se misturavam. Por exemplo, tem uma parte em que somos apresentados a um personagem mestiço, mas ninguém o quer. Os brancos não o integra,m pois para eles, ele é negro. Os negros não o integram, pois para eles, ele é branco. Até pouco tempo atrás ainda existia muito disso, porque demorou certo tempo até que a miscigenação revertesse isso.
Temos ainda o pai deles, um advogado chamado Sr. Finch. Ele é um ótimo exemplo de pessoa: se preocupa com todos e compreende o mundo de uma forma geral. Além disso, educa os filhos sem bater, mas pela conversa e pelo diálogo, sempre esclarecendo suas dúvidas. É um homem muito a frente de seu tempo, definitivamente.  Este personagem é o que mais critica a questão do racismo, nem tanto por palavras, mas por ações.
Na segunda parte do livro é que acontecem as coisas. Tudo aborda uma defesa do Sr. Finch: Tom.  Este personagem é um negro acusado de ter abusado sexualmente de uma menina. Essa é filha do Sr. Ewell, este já não era bem considerado na cidade, pois ele e sua família viviam de ajuda do governo, moravam afastados da cidade e não trabalhavam. E esse rapaz, Tom, passava todo dia pela casa deles quando ia ao trabalho. Então, a menina pediu-lhe para ajudá-la com pequenos serviços na casa, como cortar madeira. E com o tempo, ela se sentiu atraída por ele. Sendo que na verdade ele era casado e só estava com dó dela. Isso choca muito a sociedade da época: como um negro teria dó de uma branca? Mas nós hoje sabemos que a pena não tem nada a ver com cor, não é mesmo?
A menina passava todo dia em casa, cuidando dos irmãos mais novos, com um pai semi bêbado, afinal, Tom tinha todas razões para ter pena dela. Mas tudo acontece quando ela tenta beijá-lo e o Sr. Ewell vê. Tom foge e o pai a agride. E é então que ele tenta culpar o rapaz de tê-la abusado. Mesmo assim fica muito claro no livro o que aconteceu. Essa  atitude dos Ewell vem por vários motivos, primeiro o racismo e depois por defender o nome da família. Mas o pior mesmo é durante o julgamento de Tom...
É muito triste ver como o preconceito era e por vezes ainda é. Vemos esse preconceito de várias formas. Como quando Scout pergunta ao pai porque mulheres não podiam serem juradas. São assuntos assim: o direito da mulher, o direito do cidadão, o direito do negro, de todas pessoas como iguais.
Tem um personagem chamado Arthur que passa o tempo todo dentro de sua casa. Ele teve uma adolescência conturbada e depois disso decidiu ficar recluso. As crianças querem que ele saia de casa, porque elas estão curiosas, e há várias histórias sobre a casa deles. Então, descobrimos que ele ficou dentro de casa porque ele queria ficar, porque achava melhor assim. No sentido: O mundo exterior é muito cruel. Apesar de tudo, ele está presente na vida das crianças e os ajuda no fim da história.
Além disso, tem outros personagens que amarram a história. Como os Cunninghams, que vivem de agricultura, e ainda devemos lembrar que a história se passa na década de trinta, logo após a crise de 29.  Aborda essa questão da pobreza, também. Ainda que o foco do livro seja a igualdade.
Refletindo sobre o título "To Kill a Mokingbird", Mokingbird seria o pássaro cantante, o qual sua única função é cantar, então matá-lo é como matar o direito à vida. Essa é a ideia central da obra. O título em português apesar de ter sido escrito de forma bem diferente, ficou com um sentido muito bom. O escritor Edwin Bruell resumiu o simbolismo quando escreveu em 1964, "'To kill a mockingbird é sobre matar o que é inocente e inofensivo, como Tom Robinson.
O livro é de 1960 e existe um filme de 1962 que até onde sei é muito bom. Eu ainda não encontrei para assistir, mas acredito que valha a pena.
Para concluir, há um trecho em especial que eu gostaria de citar:
" — Antes de terminar, só mais uma coisa, meus senhores. Certo dia, Thomas Jefferson disse que todos os homens são criados iguais.[...]Ao contrário do que algumas pessoas nos querem fazer acreditar, nós sabemos que os homens não são criados iguais... uns são mais espertos do que outros, há pessoas que têm mais oportunidades porque nasceram com elas, alguns homens ganham mais dinheiro do que outros, algumas senhoras fazem bolos melhores do que outras... algumas pessoas nascem mais dotadas do que a maioria das restantes. «Mas há um aspecto, neste país, em que os homens são criados iguais... há uma instituição humana para a qual um pobre é igual a um Rockefeller, um homem estúpido é igual ao Einstein e o ignorante é igual ao reitor de uma universidade. Meus senhores, esta instituição é um tribunal. Tanto pode ser o Supremo Tribunal dos Estados Unidos como o mais humilde dos tribunais do país, ou até mesmo este venerável tribunal que servimos. Tal como todas as instituições humanas, os nossos tribunais também têm as suas falhas, mas os tribunais deste país são os grandes niveladores e nos nossos tribunais todos os homens são criados iguais. «Não sou um idealista que acredita firmemente na integridade dos nossos tribunais e no sistema de júri... isso para mim não é um ideal, mas sim uma realidade de vida e de trabalho. Meus senhores, este tribunal não é melhor nem pior do que cada um dos senhores aí sentados no lugar do júri. Um tribunal é tão são como o seu júri e um júri é tão são como os homens que o constituem. Tenho plena confiança que os senhores irão rever as provas apresentadas sem paixão, tomar uma decisão e devolver este arguido à sua família. Em nome de Deus, façam o vosso dever"
 Esse é mais um livro que indico. Espero que tenham gostado da resenha. Abraços e até mais!
Giovana de Carvalho Florencio