domingo, 15 de outubro de 2017

Professor

É aquele que ensina o b-a ba...
Apresenta a nossa língua...
E que conjuga o verbo amar...

Ou que explica polinômio...
E triângulo nos ensina a fazer...
Os desafios da vida nos apoia vencer...

Mostra como somos por dentro...
Faz da nossa saúde cuidar...
E nos explica como são nossos sentidos...

A produzir textos está pronto a ajudar...
Faz-nos estudar a história do mundo...
E o “segredo” dos mapas desvendar...

Esportes diferentes nos faz jogar...
A descobrir a arte interior ensina...
Línguas estrangeiras querem mostrar...

Então professor, obrigado por você existir...


Giovana de Carvalho Florencio
*Poesia escrita em 2011, na doçura de meus 12 anos








sábado, 30 de setembro de 2017

Terra dos Homens- Antoine de Saint-Exupéry

Terra Dos HomensEditora: Nova Fronteira
Ano: 2016
Páginas: 152
Idioma: Português 

Sinopse: Em “Terra dos homens”, Saint-Exupéry relata, por meio de uma narrativa fluida e instigante, suas memórias de piloto do correio aéreo francês, as aspirações em sua perigosa profissão e o dia a dia com outros pilotos e amigos, além de descrever suas impressões sobre o mundo e o papel que o homem nele desempenha — pensamentos construídos sob a ótica elevada de quem sempre observou tudo do mais fascinante e particular ponto de vista: as nuvens. Unindo realidade ao lúdico, o factual ao filosófico, “Terra dos homens” discute temas como a amizade, o heroísmo, a morte e a eterna busca por um significado para a vida.

Opinião: Depois de ler "O Pequeno Príncipe", admito, não fui mais a mesma. Foi como se finalmente tivesse achado algo que explicasse meus sentimentos. Como se por um instante pudesse voltar a ser criança. Logo que soube dessa outra obra de Saint-Exupéry, não pude deixar de conhecê-la. Nesse livro autobiográfico, o escritor e piloto nos conta sobre sua experiência nos ares e fora deles. Também sobre o tempo que ficou no deserto do Saara, então podemos ver como esse tempo o influenciou na escrita de seu Magnum Opus. Antoine era um homem que sempre estava com a cabeça nas nuvens, não só por sua profissão como metaforicamente. Enquanto não estava nos ares, estava pensando no ser humano e na vida, e claro, escrevendo. Conhecemos sua faceta e sua curiosidade com os desenhos, o que claramente inspirou o trecho do desenho do carneiro de "O Pequeno Príncipe". Um homem que conheceu diversos povos, culturas e viu a guerra de perto. 
Aqui não temos uma história linear, mas sobre os momentos em que paramos para observar as plantas crescerem, uma mãe amamentar seu filho, que olhamos o pôr do sol... Antoine se incomoda com a miséria humana e sente que somos todos seres cheios de potencial, muitas vezes relegados. Em seu trajeto da Europa para a África e América do Sul encontrou o contraste de cultura e desigualdade social. Curioso capítulo é no qual narra sua forma de lidar com a religião muçulmana tão diversa da sua.
O livro traz reflexões atemporais, por exemplo, sobre a tecnologia, no caso o avião como seu instrumento de trabalho, e a essência da vida.  A sua dualidade entre a vida como meio para o mesmo fim, a paz, o amor e a felicidade, nos mostra uma pessoa muito bem resolvida e objetiva. Por fim, concluo com uma das frases que mais me impactou desse pequeno livro:"Sempre me pareceu que as pessoas que se horrorizam muito muito com nossos progressos técnicos confundem o fim com o meio. Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que valha a pena viver".


domingo, 17 de setembro de 2017

Você merece!

Tenho percebido todos os dias que dar e receber amor é mais difícil do que parece. A entrega diária de si mesmo e o relacionar-se com 7 bilhões de indivíduos, de forma metafórica, é claro, pode ser bastante desgastante. Quando pensamos como amamos tantas pessoas ao nosso redor e porque não sabemos o que fazer para demonstrar o amor, surge aquele sentimento de impotência, insuficiência. Mas não se cobre tanto, é humanamente impossível dar atenção o tempo todo para todos ao nosso redor. Como poderíamos então demonstrar nossos sentimentos em um mundo no qual o relógio palpita sobre escrivaninha?
Relacionamentos pessoais de um modo geral exigem muito de nós. Não é por menos que um número expressivo de casamentos, namoros e amizades tem sucumbido ao fracasso, seja pelas diferenças, medos ou distâncias. No entanto, isso não quer dizer que sejam - ou tenham sido- menos valiosos. Apenas diz que o óbvio, a pressão psicológica pode esmagar nossos relacionamentos a qualquer minuto. Obs.: Desconfigure do cérebro a ligação de relacionamento a algo de cunho conjugal, estamos vendo algo muito mais amplo.
Mais complexo ainda isso se torna quando mencionamentos as diferenças de personalidade. Uma pessoa introvertida, por exemplo, pode muito bem ser falante, receptiva e até viver cercada de pessoas, e nem por isso deixará de ser quem é, dentro de si existem alguns limites a serem respeitados. O que configura uma pessoa como introvertida, pelo menos segundo a teoria de Jung, é o fato de que ela demanda sempre de um tempo sozinha para "recarregar as baterias".E
nquanto isso, os extrovertidos precisam e querem o contato humano, a companhia é o que os anima. Imagine o quão desgastante é para um introvertido explicar para um extrovertido que ele querer ficar sozinho não significa falta de amor...  Isso só para começo de conversa.
É claro que um introvertido gosta da companhia dos outros, mas isso demanda de si. Porém, o extrovertido também precisará demandar de si o respeito ao espaço pessoal do outro para que esse relacionamento prospere. E então enxergamos o fato, amar e dar amor é um comprometimento pessoal, no qual estamos em constante evolução, a cada instante nos expressamos de um jeito particular metamórfico. E entender isso demanda muita maturidade.
Contudo, precisamos compreender tudo isso para aprender a dar e receber o amor. Estamos cercados de pessoas que gostam e reparam em nós, nos admiram, e também de pessoas que verdadeiramente nos amam. Não podemos fechar nossa mente para uma expectativa e nos esquecer da realidade. Do contrário, temos de aprender a receber o amor na forma que ele aparece. Leia-se aqui, amor não quer dizer abuso. Ou seja, nós não conhecemos a vivência de cada um para julgar sua expressão de amor, uma pessoa pode gostar mais de abraços, outra de presentear, outra sorri de longe, e todos são modos de amar. 
Aprender a receber o amor quer dizer aceitar elogios, mesmo que te deixem sem graça, ou você esteja naqueles dias em que nada faz sua autoestima melhorar. Ainda estou aprendendo também a expressar o que sinto, a elogiar e ser sincera sobre meus sentimentos. Aprendendo também a aceitar quando me chamam de "bonita". Aprendendo a acreditar nos elogios, porque isso não é ser iludida, isso é dar uma chance para si mesmo e receber o amor que você merece! Eu sei, todos já nos ferimos de algum modo em algum momento. Pensamos que fomos feitos de bobo e que nada valeu a pena. Mas como já dizia meu amigo poeta: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena". (PESSOA, Fernando)
Guardar amor a sete chaves não faz bem para ninguém. Um dia vamos todos morrer, enquanto isso, temos todo tempo do mundo para espalhar amor. Não quer dizer que precisamos deixar nossa essência, ou personalidade ou qualquer outra coisa, de outro modo, significa crescer emocionalmente. Maturidade emocional não tem a ver com idade, mas com a compreensão das diferenças entre os seres humanos ao nosso redor, com respeito ao mundo de um modo geral, com entender que não estamos sozinhos e acima de tudo, com o autoconhecimento. Esse não foi apenas mais um texto de auto-ajuda da internet, esse é um convite, para você se permitir amar e ser amado, afinal, você merece!

domingo, 20 de agosto de 2017

Tributo

Imagem relacionadaO ano era de 2009, eu era apenas uma menina de 11 anos, e muita água ainda estava para rolar nas correntezas de minha vida, porém, refletindo seriamente, hoje concluo que foi naquele ano que encontrei o amor. Era mais uma viagem de família acompanhada de amigos, uma das viagens malucas que gostamos de fazer, fomos parando em várias cidades de acordo com a vontade. Mas de todas, a que mais me apaixonei foi Goiás Velho. Curioso nome, pensei, não sabia que existia um Goiás Velho, cidade também envelhece. Mesmo sendo a antiga capital do estado de Goiás, a pequena cidade parecia bem interiorana. Praça com coreto cerca de lojinhas de souvenirs. A clássica cidade turística e pitoresca brasileira. Não esperava que fosse me descobrir naquele lugar. Porém, na manhã que visitávamos os pontos turísticos da cidade e o vi, meu mundo parou .
Estava debruçado na janela de uma casa antiga. Havia uma fila para entrar naquele casebre. Todos queriam vê-lo, e outras lembranças ligadas a ele. O busto de gesso de Cora Coralina. A expressão desenhada pelo artista na obra trazia uma paz e um brilho nos olhos que me deixou entusiasmada. Queria saber porque aquela escultura estava ali e porque todos queriam vê-la? Quem teria sido aquela mulher? Porque me senti identificada com ela instantaneamente?

Não me contive e pedi para meus pais para entrar. É claro que entramos, estávamos turistando. E eu que sempre amei museus e sempre fui curiosa não poderia sair de lá sem ver tudo. Assim o fiz, entrei com meus amigos e familiares para dentro do casebre cheio de pessoas curiosas. No entanto, nenhuma parecia tão maravilhada quanto eu. "Coração é terra que ninguém vê", ela tinha escrito. Sua casa havia se tornado museu da sua obra. Mulher simples de tudo, mas de alma tão cheia. Começara a escrever aos 8 anos seus primeiros versos, tinha escrito o primeiro livro de histórias infantis aos 11 anos. Em mim sentia uma grande compreensão do universo, nossas histórias de poesia se misturavam. Conquanto, Cora, cujo nome verdadeiro era Ana, havia apenas publicado o primeiro livro aos 76 anos. 76 anos! Isso me partiu o coração.Dei-me a notar os olhos cheios d'água. Quem seria eu nesse mundão de meu Deus para conseguir um feito melhor que aquela mulher a quem eu considerei melhor poetisa do que eu? Hoje, admito que o mundo melhorou para as mulheres, para as escritoras e sonhadoras. Admiro Cora por ter batalhado a seu tempo, por ter sido quem foi. Senti um sentimento de amor fraternal por ela a quem eu sequer conhecia. Soube que ela era doceira e dei-me a sorrir. Bebi d'água do riacho que passava por sua casa, senti-me em seu lugar por um instante. Depois, abri um sorriso para meus pais e disse: "Quero comer algum doce, podemos ir à sorveteria?" A poetisa doceira havia adoçado minha alma e coração, saí dali mais forte, mais doce e mais certa do que queria, entre todas as dúvidas no mundo tinha uma certeza: queria ser poetisa.Se chego aos pés dela eu não sei, e nem acho que importa. Se ela recebeu tudo o que merecia de sucesso não é a questão. O ponto é que devo agradecer a Cora Coralina por ter me inspirado e mostrado as mazelas da vida de escritor. Mais ainda agradeço por ter me apresentado ao meu grande amor: as P-A-L-A-V-R-A-S. Este é meu breve e humilde tributo no 128º aniversário desta grande poetisa.

Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.” CORALINA, Cora.

Curiosidades:1970-Cora tomou posse da cadeira número 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. 
1981- Recebeu o Troféu Jaburu através do Conselho Estadual de Cultura de Goiás.
1982- Recebeu o Prêmio de Poesia em São Paulo. Pela Universidade de Goiás, Cora Coralina foi agraciada com o título de Doutora Honoris Causa.
1984- Recebeu o Troféu Juca Pato, sendo a primeira escritora do país a recebê-lo. Nesse mesmo ano, ingressa na Academia Goiânia de Letras, ocupando a cadeira número 38.
Após sua morte, a casa onde viveu os últimos anos de vida foi transformada no Museu Cora Coralina. 
Em 2001, a moradia na cidade de Goiás foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Filme "Abril despedaçado"

Mais um belo longa recomendado pelo meu amigo cinéfilo. Assisti Abril Despedaçado em Julho, mas ainda assim despedacei meu coração. Um dos longas brasileiros mais tocantes que já contemplei. 


Imagem relacionada
Data de lançamento: 01 de maio de 2002
Duração: 1h 30min
Gênero: Drama
Nacionalidade: França, Suiça, Brasil
Sinopse: Em abril de 1910, na geografia desértica do sertão brasileiro vive Tonho (Rodrigo Santoro) e sua família. Tonho vive atualmente uma grande dúvida, pois ao mesmo tempo que é impelido por seu pai (José Dumont) para vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, sabe que caso se vingue será perseguido e terá pouco tempo de vida. Angustiado pela perspectiva da morte, Tonho passa então a questionar a lógica da violência e da tradição.
Opinião: Cenário simples, trama tocante, atores sutis e filme impactante. No sertão, início do século XX, famílias rivais matam uma a outra em nome da honra. Entre as mortes estes propõe uma trégua, até que o sangue do morto amarele em sua roupa. Os jovens dessas famílias vão se vingando, até que chega a vez de Tonho.
Tonho não se sente confortável nessa posição, é claro. É como se ele estivesse preso naquela realidade, naquele ciclo sem fim. A princípio, o jovem parece aceitar a morte eminente e uma vida sem nunca conhecer o amor. Até que o circo chega na cidade próxima e seu irmão mais novo, sonhador, passa a o incentivar a viver e ter esperança.
A palavra esperança é o que rege o longa. Com uma diálogo simples, mais pontual, abril despedaçado realmente nos faz pensar e despedaça nossos corações. Um filme poético, delicado e humano. É maravilhoso saber que o Brasil é capaz de produzir uma obra tão instigante, com qualidade na trama, fotografia e atuação. Abra sua mente e dê espaço para o cinema brasileiro, assista Abril Despedaçado.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Poesia de vida- (Dia do Escritor)


Da vida, a poesia é a maior fantasia
Encanto dos meus dias e alegrias
Palavras semeadas em línguas, gesto e ação
Poesia é um ato de amor e pura gratidão
Viva a vida! Grata seja pela poesia

Semeia sementes de recantos em cantos
Sinta a vida em uma inspiração constante
Os batuques e acordes vão lentamente vibrando
Rodam as manivelas dessa vida infante
Drama dessa minha alma aos berrantes

Fluxos de palavras a tambolirarem venéreas
Negras de amores a rentes almas esféricas
Beija-flores a janela sugam o néctar das flores
E a chuva pasma que cai desmorona os amores
Reinações de narizinhos a poetizar as cores

Sem certezas ou dúvidas, sou como uma via crucis
Sou o tintilar do vidro ao render-se ao duro chão
Sou o mundo, sou a mágoa, a eterna solidão
As palavras me são faca para matar minha paixão
A paixão desmedida pela beleza da poesia e suas cruzes
Giovana de Carvalho Florencio


sábado, 15 de julho de 2017

Resenha- Ensaio sobre a cegueira

Ensaio Sobre A CegueiraEditora: Companhia das Letras
Ano:  1995
Páginas: 310
Idioma: Português 

Sinopse: Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.
O "Ensaio sobre a cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".

Opinião: Saramago estava na minha lista já fazia um bom tempo, ainda mais depois de que assisti o filme dessa belíssima obra. Imaginei que se o longa tinha a capacidade de me fazer sentar na cama e refletir sobre a vida, o que faria o livro? Por isso me preparei e digeri aos poucos esse importante ensaio sobre a cegueira humana. Afinal, o que é ser cego? A cegueira aparece aqui como a protagonista da história, doença que se alastra e contamina a todos, sobrando apenas uma pessoa sã. Como ela poderia ajudar os outros?
Entrar na obra e conhecer o máximo da miséria humana aos olhos de uma única pessoa sã, nos faz refletir sobre o sentimento de impotência que por vezes nos assola. Um motorista fica inexplicavelmente cego enquanto observa o sinal vermelho, consulta um médico, que por sua vez fica com o mesmo mal. E de igual modo, todos os pacientes daquele dia. A esposa do médico, sem temer, vai junto ao esposo para a quarentena, alegando estar cega. A cegueira branca não parecia ter explicação na medicina, talvez fosse algo psicológico, mas como assolaria tantas pessoas assim? Isso é, todos, menos a esposa do médico.
Na quarentena vemos de tudo, desde a fome, o instinto materno de uma jovem para com um menininho estrábico, o amor desta por um velho, um casal lutando para ficar junto e a morte sorrateiramente puxando o tapete de nossos personagens. Na cegueira não há feio nem belo, muito menos sorrisos, sequer há lei, não nessa cegueira. Vemos o pior do ser humano, o assédio sexual, o homicídio, o estupro, a mentira e a miséria; sem poder ver, todos se tornam selvagens. Um ladrão de carro que alegava ajudar o motorista repentinamente cego tenta diminuir sua culpa ao deixar o cego em casa. Mas também adquire a doença. 
Uma rapariga em seu momento de êxtase vê-se cega e nua pelas ruas. O homem que com ela se deitou. A camareira do quarto do hotel. E tudo se reproduzindo como uma peste. No entanto, não só de males vive o mundo, no momento de completa cegueira, todos são humanos. Não interessa a profissão, razão ou segredos, todos ali são humanos e sujeitos as mesmas intempéries. Isto é, mesmo trancados em quarentena, cada um continua a querer se diferenciar do outro. Ao lado desse eu não ando, diz o motorista ao ladrão de seu carro. 
Tornam-se todos iguais quando a fome chega. O país está cego, não há governo, nem comida, os guardas com suas armas tomam-a pra si e regem com tirania. A morte vai levando vidas de pura animalidade, são seres em se estado mais primitivo, ainda que não tenha se passado tanto tempo desde o primeiro caso. Quanto tempo levaria para todos morrerem se não houvesse ajuda mútua? Quanto tempo sobreviveríamos se ninguém enxergasse o próximo? Pelos cálculos de nossa única remanescente, não muito.
A dor e a miséria humana são sorvidas aqui até a última gota. A nudez é exposta e a alma pisoteada. O único que continua a ver sem ver é o escritor. Se tudo desmorona, a imaginação é tudo que nos sobra. Saramago consegue nos fazer vibrar, temer, se emocionar e viver em uma realidade abrupta, por vezes real. Acabamos por ver que nem tudo é tão ruim quanto parece, mas que vivemos sim em um estado de cegueira. Quando vamos parar de olhar só para nosso umbigo, se achar superiores ou ignorar as mazelas do mundo? É o fardo que o autor nos joga nos ombros para refletir sobre a vida. É como já dizia meu amigo Voltaire, "Todo homem é culpado pelo bem que ele não fez".

Obs.: Saramago foi o único autor da língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel da Literatura.

"O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos." Saramago